No Nordeste transmontano,
aprendi cedo a escassez:
faltava quase tudo,
sobrava a coragem.
A vida era pobre,
e a tristeza caminhava descalça
ao nosso lado.
Para fugir ao aperto do mundo,
parti ainda jovem,
levando pouco mais que esperança.
Angola chamou-me
como chama a luz a quem anda na sombra.
Lá encontrei trabalho e futuro,
dias sem medo da fome,
noites com horizonte.
Lá encontrei o amor da minha vida
- uma mulher bela como aquela terra quente -
e lá nasceram os meus filhos,
um casal de orgulho inteiro,
minha herança mais feliz.
Angola, terra vasta e generosa,
onde fui homem completo,
onde fui feliz.
A ti ficarei ligado
para além do tempo e da distância.
Mas a história não pede licença.
Com a descolonização
veio a fuga,
o abandono forçado,
o adeus sem despedida.
Deixei bens, casa, passado -
mas salvei a família,
a minha maior riqueza.
Parti com a mágoa colada à pele
e uma parte de mim ficou lá,
entre a poeira vermelha
e as memórias intactas.
Guardo imagens que não envelhecem,
rostos, cheiros, caminhos.
Porque há terras que não se deixam,
mesmo quando somos obrigados a partir.
(mcm)
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