quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

RAÍZES E PARTIDAS



No Nordeste transmontano,

aprendi cedo a escassez:

faltava quase tudo, 

sobrava a coragem.

A vida era pobre,

e a tristeza caminhava descalça

ao nosso lado.


Para fugir ao aperto do mundo,

parti ainda jovem,

levando pouco mais que esperança.

Angola chamou-me

como chama a luz a quem anda na sombra.


Lá encontrei trabalho e futuro,

dias sem medo da fome,

noites com horizonte.

Lá encontrei o amor da minha vida

- uma mulher bela como aquela terra quente -

e lá nasceram os meus filhos,

um casal de orgulho inteiro,

minha herança mais feliz.


Angola, terra vasta e generosa, 

onde fui homem completo,

onde fui feliz.

A ti ficarei ligado

para além do tempo e da distância.


Mas a história não pede licença.

Com a descolonização

veio a fuga,

o abandono forçado,

o adeus sem despedida.


Deixei bens, casa, passado -

mas salvei a família,

a minha maior riqueza.

Parti com a mágoa colada à pele

e uma parte de mim ficou lá,

entre a poeira vermelha

e as memórias intactas.


Guardo imagens que não envelhecem,

rostos, cheiros, caminhos.

Porque há terras que não se deixam,

mesmo quando somos obrigados a partir.


(mcm)


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