FRAGMENTOS DA MINHA VELHICE
Felizes os que chegam a velhos,
com a vida escrita no olhar,
mesmo quando o corpo cede
e começa, devagar, a abrandar.
Sinto a velhice a entrar em mim
nos gestos que já não são ligeiros,
no cansaço que chega cedo,
nos passos antes tão certeiros.
As pernas já não correm o mundo,
os braços perderam vigor,
e a força que antes me guiava
vai perdendo o seu fulgor.
A cabeleira negra e farta
tornou-se branca, rarefeita,
como neve que cai em silêncio
numa memória já refeita.
As rugas marcam o meu rosto,
linhas de histórias vividas,
cada uma guarda um instante,
de alegrias, tristezas e feridas.
As articulações queixam-se,
os ossos falam sem voz,
numa linguagem de dor
que o tempo deixou em nós.
A visão agora pede ajuda,
os óculos tornam-se companhia,
para continuar a ver o mundo
com a mesma velha magia.
Ninguém quer partir tão cedo,
nem dizer adeus à vida,
todos desejamos mais tempo,
mais uma história vivida.
Mas a velhice… ah, a velhice,
é caminho duro e desigual,
cada um leva a sua carga,
cada história é singular.
Ainda assim, sigo em frente
com coragem e gratidão,
vivendo cada novo dia
como uma bênção do Céu.
Viver com dignidade é meu lema,
aceitar o tempo sem revolta,
e dar graças, dia após dia,
por cada instante que o Criador me acrescenta.
(mcm)
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