Costuma dizer-se que o tempo tudo cura. Eu não estou certo de que seja mesmo assim...
Há feridas que cicatrizam, mas deixam uma marca permanente na memória. Os maus tratos sofridos, as ingratidões, as burlas, as ofensas à honra, as humilhações ou as injustiças podem ser atenuados pelo tempo e, em muitos casos, pela ajuda de familiares, amigos ou profissionais de saúde. No entanto, raramente desaparecem por completo.
O ser humano tem a capacidade de perdoar, mas esquecer é muito mais difícil. Basta um acontecimento, uma palavra, uma imagem ou uma data para despertar recordações que pareciam adormecidas. É como uma brasa escondida e adormecida sob as cinzas: basta um pequeno sopro para voltar a ganhar calor.
O mesmo acontece com os povos. A memória colectiva conserva episódios de sofrimento, derrotas, invasões e conflitos que passam de geração em geração, alimentando sentimentos de pertença, orgulho e, por vezes, de ressentimento.
Foi isso que me ocorreu ao ver o recente jogo entre a Inglaterra e a Argentina, no Mundial de Futebol. Quarenta e quatro anos depois da Guerra das Malvinas, os jogadores argentinos exibiram uma tarja com a frase: "As Malvinas são Argentinas".
Independentemente da posição que cada um tenha sobre esse conflito, o gesto demonstrou que a guerra terminou no campo militar, mas continua viva na memória de muitos argentinos.
Este episódio recorda-nos que o tempo, por si só, nem sempre apaga as feridas da História. As cicatrizes permanecem, tanto nas pessoas como nas nações.
Talvez a verdadeira grandeza não esteja em esquecer o passado, porque isso é muitas vezes impossível, mas em aprender com ele. Recordar sem alimentar o ódio, honrar a memória sem transformar a dor em desejo de vingança e construir um futuro onde os erros de ontem não se repitam.
A memória é um património que nos ajuda a compreender quem somos. Mas só quando caminhamos de mãos dadas com a razão, a tolerância e a paz é que ela deixa de ser um peso e passa a ser uma lição.
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